Há uns tempos, um artigo do jornal Público reacendia as memórias de um concerto “mágico” realizado há alguns anos (na verdade demasiados) no Festival Sudoeste. Esta revisitação do passado foi feita por altura do mais recente concerto dos Portishead em Lisboa. Estava desatento. Para além de só ter tomado conta deste regresso em cima da data, também li todo esse artigo sem me recordar que também eu estive lá. Os tempos eram outros. Se por um lado as memórias visuais desse período são luminosas, as sonoras são escuras: vozes arrastadas, batidas taquicárdicas, ambientes nebulosos, chuvosos. Esta sombra não era a de uma árvore numa tarde soalheira de Verão mas sim a de um denso e distante ambiente urbano. Na altura não tínhamos ainda os pequenos leitores de mp3. Os discman e mesmo os walkman reinavam. Ofereciam-se "mixes", ou seja, bandas sonoras para as nossas movimentações quotidianas, para as viagens com os amigos, para as festas. Os Portishead marcaram a transição de uma realidade protegida do liceu para os primeiros anos da faculdade. Falava-se em trip-hop, “curtia-se” ao som de Tricky, de Massive Attack, Nicolette, Morcheeba, Lamb… Parece agora contraditório que esses tempos luminosos tivessem de ser abafados com uma sonoridade escura, mas compreendia-se o deslumbre pela sofisticação sonora, o chamamento urbano. Já com leitor de mp3 voltei aos Portishead, quer dizer, o álbum é novo mas nele residem os passados, ou melhor, o Passado. É Primavera, mas o som é de um Inverno distante. Quanto ao concerto, a razão para a memória adormecida pode residir nos banhos forçados em canais ricos em fosfatos, na excessiva vodka “from the bottle” (acondicionada em garrafa de litro e meio de plástico), nas quebras de tensão, no cansaço, nas noites mal dormidas, no sol em excesso…
As televisões e revistas do coração espanholas estão ao rubro. Nesta semana que é santa, é preciso reforço para cobrir todas as celebridades que de forma mais ou menos exposta assistem em devoção às procissões. Justifica-se a atenção dada à Melanie, mulher de Antonio, um resquício da velha Hollywood que apesar do assédio responde cordialmente aos repórteres no seu melhor castelhano. A simpatia não a livra de um cáustico comentário sobre a sua “recauchutagem”…Depois há os toureiros, os filhos de toureiros, as ex-mulheres. O sangue azul por vezes justifica o interesse dos media. Outras vezes, assistindo aqui deste lado da fronteira, os alvos parecem não merecer o esforço e o interesse. A TVE, televisão do estado, exibe vídeo amadores. Repórteres em passo acelerado atravessam os terminais do aeroporto para tentar arrancar um destino, uma companhia. Não há misericórdia. Perguntam-se as razões dos rompimentos, confrontam-se as “ex” com as mais recentes titulares. Acaba por ser divertido. Toda a gente entra no jogo e assim se vão gastando muitos minutos de antena. Tristezas não pagam dívidas.
(Para quê começar este post em inglês se depois o texto vem todo em português? Há simplesmente coisas que não se explicam. Pareceu-me simplesmente bem, tenho andado com este “título” na cabeça.)
Se calhar nesta vida somos todos uns inadaptados e tendencialmente agrupamo-nos segundo semelhanças de inadaptação. Se calhar alguns de nós somos inadaptados e tendencialmente agrupamo-nos segundo semelhanças de inadaptação.
Este freak show é assustador. Tanto para quem de fora olha com desdém como para quem se insere e se vê absorvido. É urgente que se fabrique um mega-tampão de protecção…é claro que esta necessidade é um óbvio sinal de inadaptação. Resumindo: um inadaptado entre inadaptados.
O sistema de castas parece, aqui, à distância, um sistema confortável: o azeite não mistura com água, já se sabe e não se insiste. Dado adquirido.
Definitivamente, a Maya tem mesmo razão: por mais que me custe, este ano vou mesmo andar com os pés no chão. Vai doer.
Há aquele velho e sábio chavão: “não interessa o destino, o que interessa é a viagem!” Pois bem, então e onde se encaixa a viagem de “baixo custo”? Apesar das sanduíches de Panrico com queijo e sem manteiga, do Nesquick e da água engarrafada no terminal do aeroporto serem pouco apetecíveis e oferecidas a preço de ouro, depois dos atrasos no check-in e no embarque inevitavelmente não resistiremos ao carrinho atafulhado de celofane e sucumbiremos à oferta. São produtos de baixa qualidade e esperamos ao menos que o avião seja como os outros: bons e que não falhem! Muitas das vezes voamos em jactos novinhos, modernos, mas nesta minha história sobre o low cost o que interessa é o todo: do branco imaculado do repouso para a cabeça, ao sorriso simpático, tranquilo e de dentição completa da hospedeira de bordo. Não viajamos só em low cost, na verdade até há quem viva em low cost e nem se dá conta. Interessamo-nos em chegar, só em chegar. As viagens nem sempre são tranquilas, há poços de ar, turbulência. Perde-se a bagagem, há overbooking. Não nos entendemos com o terminal, perdemos a nossa ligação. Às vezes são estas pequenas histórias que valorizam a outra grande história que se centra essencialmente na chegada. Mas quando acontecem são uma maçada, um gigantesco eclipse que ofusca tudo e todos. Momentaneamente ficamos sem ver. Descolagens e aterragens suaves, céus claros e nada de atrasos: é isso que imperativamente queremos! Eventualmente acabaremos por esquecer o maldito pão de forma e rapidamente voltamos a comprar, na comodidade do lar e via online, uma nova passagem “quase dada”. O que interessa é chegar!